16 de Abril de 2003 - Ano IX - Número 236
Busca:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Colunas
Thomaz Wood Jr.
Para a nova trupe do descampado central, a reconstrução da identidade coletiva é uma questão-chave, a envolver tortuoso diálogo entre a imagem e a substância
Dossiês
Grampos e Espionagem
A privatização da telefonia, a PF de Chelotti e a operação ilegal da CIA e do DEA no País
As empresas mais admiradas do Brasil
As empresas com melhor imagem no País, segundo a pesquisa CartaCapital/InterScience
produzido por:

Saúde

POLÊMICAS DA CIÊNCIA
A GENÉTICA E A BURRICE
Um dos responsáveis pela descoberta do DNA afirma que a falta de inteligência é passada pelos genes e deve ser tratada como doença

Por Rogério Tuma

Em documentário apresentado pelo Canal 4 inglês, comemorando os 50 anos da descoberta da molécula do DNA, o cientista James Watson – que foi o autor da façanha, juntamente com Francis Crick – causou polêmica afirmando que a burrice é genética e deve ser tratada como doença.
No mesmo documentário, quando foi apresentado a uma família com dois filhos, um deles com síndrome de Down – e tão valorizado quanto o outro – o cientista soube expressar apenas emoção, talvez por lembrar de seu próprio filho também portador de uma doença mental, a esquizofrenia.
Rusty Kennedy/AP
Evidência.
Gêmeos idênticos têm QI similar
Um artigo publicado na Nature Neuroscience de novembro de 2001 por Paul Thompson, da Universidade da Califórnia, mostra que gêmeos idênticos – portadores, portanto, do mesmo DNA – têm a massa cinzenta e o QI, em média, 95% idênticos, enquanto nos gêmeos não-idênticos essa correlação fica entre 60% e 70%. Isso demonstra a existência de um componente genético para a inteligência.

Ainda hoje não mapeamos a genética da inteligência, nem sequer a definimos satisfatoriamente. Ela não é uma função vertical, isolada, mas sim um complexo de funções, entre as quais a memória espacial, a memória verbal, o cálculo, a atenção, a habilidade visuo-espacial, o raciocínio lógico, a abstração e a fluência verbal. Sabemos que muitos desses componentes são transmitidos por um ou vários genes, sem saber quais são e em que cromossomo estão.
Além da genética, o ambiente, os estímulos na infância, as experiências pessoais e muitos outros fatores afetam a performance do indivíduo nos testes de QI e nos testes da vida. O que o dr. Watson deveria ter dito é que existem doenças genéticas que afetam a inteligência – como a Fenilcetonúria e a síndrome do Cromossomo X Frágil – e que a terapia gênica poderia ajudar a curá-las.
Outro cientista com um prêmio Nobel no currículo, o dr. Paul Nurse, chefe do Instituto de Câncer da Inglaterra, é mais atento à ética e prediz que, em 20 anos, poderemos ter um cartão com todo nosso mapa genético, o que permitiria uma medicina preventiva personalizada. Mas ele alerta que, com isso, podemos iniciar uma fase de segregação genética, na qual as oportunidades só apareceriam para quem tem “bons genes”.
O dr. Watson também prega que todas as garotas sejam feitas lindas, mas essa outra polêmica pode ser interpretada apenas como resultado de falta de inteligência ou de alguns genes que a influenciam.


CONTA-GOTAS

Gordinhos, atenção
A Organização Mundial de Saúde criou uma força tarefa para eliminar a obesidade, considerada uma doença epidêmica. O dr. Phillip James lembra que, apesar de opções saudáveis de dieta terem surgido nos últimos dez anos, o índice de obesos nas populações cresceu mais rapidamente. Nos EUA o porcentual de obesos já é de 31% em adultos e 25% entre as crianças; na Inglaterra esses índices atingem 23% e 20%, respectivamente. O dr. James acredita que, em 20 anos, esse porcentual chegue a 50% em alguns países. O número de doenças associadas como hipertensão, derrame, infarto e diabetes têm aumentado. Uma força tarefa da OMS, liderada pelo dr. James, estimula governos a desenvolver programas que despertem na população a consciência da importância de dietas mais saudáveis. A força tarefa negocia com as empresas de alimentos a criação de produtos com densidade calórica menor. Os produtores de alimentos deveriam se lembrar do desgaste que a indústria do tabaco sofreu por negligenciar os riscos a longo prazo.

Jovens eternos, atenção
A nova onda de medicamentos orais para rejuvenescimento que usam hormônio de crescimento – GH – são caríssimos e não têm base científica. Desde que em 1990 o New England Journal of Medicine publicou um artigo do dr. Rudman mostrando que o GH administrado pela veia em indivíduos com mais de 60 anos aumentava a massa muscular e reduzia a gordura, muitos anúncios milagrosos apareceram. A revista na semana passada apresentou uma revisão sobre o assunto e concluiu que não existe nenhum ganho em termos de força ou rejuvenescimento, que o GH por via oral não funciona e, pior ainda, que o GH usado por muito tempo pode induzir o câncer de próstata. A única medida que comprovadamente funciona, e custa bem menos, é a atividade física freqüente.

 
Imprime E-mail
© 1999 - 2002 Editora Confiança Ltda. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste website.